Íntimo exílio, de Natália Luna

Composto por dezenove poemas, o livro de estreia da poeta pessoense, Natália Luna, é um convite ao mergulho no abismo em que as palavras habitam. Uma obra em que o anseio de apreciá-la se alastra desde a orelha, o excerto, o prefácio e as epígrafes — e no caso deste mero leitor-crítico, se me permitem o adendo, sobreveio antes mesmo do anúncio de sua chegada interfonado pelo carteiro, o pedido feito, recusado, refeito e aprovado após nova impressão, o retorno ao catálogo e, enfim, o pacote entregue — até esvanecer ao revelar a intimidade dos seus versos e reacender ao fim da experiência.

“Poema de rezas e descobertas” abre o primeiro dos cinco cômodos em que os demais se constituem, por assim dizer. Como se todos eles compusessem uma morada ou refúgio corpóreo onde o ser preserva seu estado originário e demais existências. A palavra transmutada, o desejo inevitável, a solidão e o encontro consigo mesma a despeito de alguns ou na comunhão com Outros. Versos autoconscienciosos que revelam a criança de outrora metamorfoseada numa mulher com a mala a tiracolo.

Os poemas de Íntimo exílio (2019, urutau) problematizam, em certa medida, o tornar-se mulher, que não se constitui ao nascer, como sublinha Beauvoir; alcançando a concretude no transcurso da vida, com todas as suas benesses, traumas e dores. Experiências que se assemelham aos fios de uma trama, entrelaçados por uma tecelã, até adquirir a resistência necessária para suportar as tensões provocadas pelo tear que é a própria vida. Fios estes que, antes mesmo de chegar a tanto, passaram por inúmeras violências: do germinar da semente à colheita-parto da fibra processada até se transformar na matéria têxtil, mensurada para o corte à medida do corpo, trespassada pela agulha, chuleada, desenrugada à ferro e, enfim(?), convertida em indumentária.

No quarteto composto por “A hora fundamental”, “da vileza do pouco”, “poema dos suplicantes” e “vapor cancioneira”, o lirismo de Luna ecoa de modo mais intenso, como se as palavras fossem notas pautadas nas linhas paralelas de cada verso. O ritmo é fluido, feito as águas de um córrego em seu nascedouro, avolumando-se por “um caminho [heraclitiano] que já não retorna mais”, até se tornar riacho, ribeirão e rio. Ante a impetuosidade da mudança e sua velocidade, cada verso carrega consigo a eternidade de algum instante, ecoando pelo tempo em seu fluxo perene.

Apesar de a melodia não se tornar desarmônica e ruidosa em virtude das dissonâncias existentes, há que se destacar a dureza de seus acordes nesta analogia. Todo organismo que passa por uma mutagênese, sofre as agressões inerentes ao processo. O amor inválido em suas inumeráveis formas, deixado para trás feito poeiras acumuladas em qualquer canto, os limites dos sonhos, a insaciável e sôfrega entrega às paixões. “O esquecimento [daquilo que se deve esquecer] não é de repente”. Em certa medida, ocorre feito sangria, eliminando pouco a pouco a intemperança que mortifica o corpo e a existência em si mesma.

No terceiro e quarto espaço dessa morada exílica, os poemas versam sobre as vivências e o não vivido, os lugares de ausência, o mundo a ser preenchido, os caminhos que levam “Para uma outra manhã de outono”, a busca de si mesma, do corpo que ama iluminado pelo amanhecer, horas e horas ritmadas pelo próprio eu lírico que segue ao encontro do lugar de refúgio. Mais do que uma entrega, oferta ou doação, a abertura de si para o Outro é também completude. É o fazer-se inteira na fruição dos afetos sem o cárcere da posse. O desapego de tudo que já não tem mais valia.

“Por uma linguagem nova e acessível”, Natália Luna amplifica os sons por toda parte, como “necessidade de supressão poética dos fatos jornalescos”. Grito entoado como desafogo de uma poeta que se lança ao crivo de outros tantos e seus leitores, sem temer a exposição, o revelar-se por inteira, inclusive o desconhecido de outrora e sempre existente, emergido na tessitura das palavras. Estas que muitas vezes se fizeram silêncio para revelarem teus (en)cantos. Palavras que seguem agora impressas, para o deleito daqueles que encontrar pelo caminho.

Natália Luna é pessoense, bacharela em Filosofia pela Unicamp. Dedica-se todo dia aos desatinos da linguagem, explorando a escrita automática como forma de acessar o inconsciente que se esconde nos subterrâneos da linguagem para encontrar a palavra liberada, dando passagem ao que antes desconhecia. Trabalha costurando os fios do acaso com uma agulha, dando ao tempo o que ele tem de cúmplice e necessário. Disse que em breve lançaria o seu primeiro livro e eis que agora ele é matéria viva com as coisas que fazem parte desse mundo.

2 comentários sobre “Íntimo exílio, de Natália Luna

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s