Pandemônio – nove narrativas entre São Paulo – Berlim

Organizado por Cristina Judar e Fred Di Giacomo, Pandemônio… reúne um time de escritores nacionais e estrangeiros para compor nove narrativas sobre a crise sanitária mundial causada pela Covid-19, sob a ótica dos residentes nas metrópoles paulista e berlinense: Alexandre Ribeiro, Aline Bei, Carola Saavedra, Carsten Regel, Cristina Judar, Fred Di Giacomo, Jorge Ialanji Filholini, Karin Hueck, Raimundo Neto.

Apresentado por dois textos epistolares escritos pelos organizadores, a obra em questão insere o leitor no turbilhão de sentimentos e percepções sobre as relações sociais, a obra de arte e a experiência estética, o insólito, o terror, a solidão, o desespero, a finitude da vida diante da doença e demais questões inerentes à condição humana. Questões essas sintetizadas no transcurso de um tempo que vai de maio a julho de 2020, e que, de certo modo, ultrapassam o momento em que autores, personagens e leitores estão inseridos, para um mundo que ainda está por vir — se é que efetivamente virá um novo mundo, como questiona Fred Di Giacomo ao término da sua carta à Cristina.

Nessa espécie de “Cápsula do tempo” que Pandemônio… pode ser definida, não há como o leitor sair incólume após mergulhar nos relatos de uma crise transmutada em objeto estético, por assim dizer. Não apenas por tal crise ser “um terremoto global do antropoceno, a metástase do capitalismo selvagem e a crise das democracias”, como bem descreveu o prefaciador; mas por esse objeto que chega às mãos, aos olhos e ouvidos dos leitores, carregar consigo a visão sensível de quem viu o horror passar diante dos olhos e o experimentou no próprio corpo, unido aos anseios pelas impressões de como essa tragédia humanitária se desenvolve nos lados opostos do atlântico. Possivelmente tais impressões não sejam tão otimistas, como observa Cristina Judar, tanto pela recorrente vivência do pior momento da pandemia em cada canto do país — como se estivéssemos presos num looping eterno de um filme de terror —, quanto pelo substrato final da obra criada pelos autores do lado de cá exalar dor e medo pelos poros. Afinal, como a própria autora enfatiza “Não há como criar histórias sem que esses horrores estejam presentes, implícita ou explicitamente”.

Mais do que antecipar aquilo que o leitor encontrará no decorrer das páginas, a metalinguagem, ou metaliteratura, realizada por Judar e Di Giacomo, possibilita-nos ampliar o campo de visão sobre a inerente relação entre a Vida e a Arte. Relação essa que aparece de modo explícito no conto de abertura “Restituição”, de Carola Saavedra. Se na apresentação de Pandemônio… seus autores analisam a representação da Vida e a sua finitude por meio da Arte literária, a personagem-narradora de Saavedra chega ao ponto em que já não há mais como discernir onde uma começa e a outra termina. Diante do absurdo da vida, do colapso da realidade e a derrocada de um amanhã alicerçado em sonhos, resta à sua personagem apostar no surgimento de um novo mundo. Ainda que ele venha gerido como numa gestação, o que motiva a pergunta proclamada desde o início a ressoar novamente. E assim como aos progenitores não restam outra coisa a não ser acreditar na vida, Carola Saavedra encerra a sua narrativa com sua personagem tecendo sobre o oposto daquilo que assola a todos, como se tentasse reaver aquilo que nos foi tirado, usurpado ou transformado em algo indigesto, desprezível.

Mas o enfrentamento de uma crise global se dá e é sentida da mesma forma por todos? Eis outra questão que poderíamos colocar, ainda que retoricamente, numa tentativa de problematizar as realidades vividas e transformadas em literatura.

Oriunda do grego, πανδήμιος (pandēmios / de todo o povo), a etimologia da palavra remete a uma doença infecciosa que atinge a todos que encontra pela frente, sem distinção de nacionalidade, classe, idade, raça ou gênero — ao menos é o que dizem os especialistas, os governos, a imprensa e tantas outras vozes. Mas o que se percebe, tanto pela realidade fatídica dos nossos dias, quanto no conto “Ruth sem medo”, de Aline Bei, é que uma tragédia global não provoca as mesmas reações e sentimentos como se espera. Menos ainda no que diz respeito ao medo que se alastra tão voraz quanto o próprio vírus, e as consequências a serem enfrentadas, se acaso a má sorte descer garganta abaixo feito o indispensável licorzinho da personagem, Dona Ruth. Quem somos ou quem nos tornamos diante do pânico e do medo? Em seu conto, Bei elabora a questão sob duas perspectivas: a primeira reflete o comportamento padrão a ser adotado como medidas de segurança; a segunda, a visão de quem teme mais pela solidão do que a morte. Incertezas, os nervos a flor da pele, desespero, alteridade e sensatez são algumas questões implícitas e explícitas em sua narrativa. E um dos exercícios a serem praticados, tanto na leitura em questão como em qualquer outra, e até mesmo fora dela, é nos colocarmos no lugar do Outro, seja ele quem for.

Em “Møns Klint”, de Alexandre Ribeiro, a dissonância comportamental reaparece na percepção (ou a falta?) da gravidade da crise que se prolifera, na medida em que a primeira reação do narrador-personagem ao ter sua vida afetada pela pandemia é se enraivecer por ser “obrigado a andar de ônibus”, após cancelarem o evento ao qual fora convidado; ao invés de se abalar pelo motivo de tal cancelamento ou pelas notícias da própria família que recebera naquele mesmo instante. Ribeiro aborda ainda sobre a questão da espera como algo que machuca, assim como a estética de um mundo em declínio fere os olhos de quem o contempla. Diante da Vida à beira do abismo, o narrador revive na memória alguns caminhos percorridos até ali, problematizando a questão identitária através do fluxo de consciência, enquanto fervilha dentro de si o desejo de retornar para casa. Desejo, esse, possivelmente semelhante ao daqueles que, assim como ele, esperam pelo ônibus no galpão de embarque. Embora o autor não recoloque a dúvida sobre o advento de um mundo novo, a questão permanece latente ao término do conto, ante a incerteza da direção a ser tomada: retornar para onde a vida tingiu-se de luto ou refugiar-se onde suas cores podem ser mais vívidas?

No quarto conto, “Corpos à vista”, o eventual acerto de contas entre o mundo e a espécie humana, dá lugar a uma simbiose entre diversos corpos transubstanciando terra-mar-divindade-pedra-ou-animalem um organismo único. A narrativa nos fala da morte de vários corpos antes mesmo da pandemia, desde o desmatamento, a poluição dos rios e oceanos, até chegar aos corpos humanos, tanto no encerramento da vida física quanto com a não-aceitação de uma existência plural de inúmeros corpos. O espetáculo ascendido ao palco por Cristina Judar é contracenado ainda por outros dois personagens: o desejo pela pessoa amada e a presença corpórea desta simbolizada noutra matéria. Enquanto o imenso corpo vivo reage aos parasitas que o corroeram ao longo da sua evolução e declínio, a personagem de Judar prepara lentamente a materialização do corpo desejado feito uma refeição a ser devorada. A cena se desenvolve feito uma dança lenta em meio ao fim do mundo, ou feito a destreza na contenção dos impulsos libidinosos durante as preliminares, ou a paciência e virtuosismo da artesã diante da obra a ser esculpida em mármore, ou qualquer ato que exige paciência, contemplação e espera. Impressiona o lirismo e a densidade do texto. Imagens que revelam uma face da existência conhecida por poucos e que somente uma leitura atenta pode perceber.

Curioso é observar como algumas palavras-chaves reaparecem em cada conto como temas a serem elaborados de modo antagônicos: a casa como um lugar distante e seguro, ou como um lugar inóspito e menos aprazível do que a rua, ou como um lugar onde os inúmeros prazeres devem ser cultuados e a exterioridade de tudo se torna insignificante; a espera como uma agonia insuportável, ou como uma prática a ser exercida, e tantos outros significados que ela pode ter; a bebida como um recurso anestésico da vida ou como fator reunificador de antigos amantes e elixir afrodisíaco.

A distância é outro tema problematizado em Pandemônio…, quer seja geográfica, física, afetiva, comportamental ou ideológica. Em “Encurtando distâncias”, de Carsten Regel, por exemplo, não sabemos ao certo o que motivou a separação de um casal e consequentemente o distanciamento de qualquer relação entre os dois, mas essa mesma condição imposta feito medida protetiva a todos, acaba de modo inesperado reaproximando os dois no fim das contas — ou tornando prevalecente a impulsividade carnal sobre a racionalidade, o ressentimento, as dores, ou qualquer outro fator plausível para mantê-los distante um do outro.

No conto “Eu, Bernardo e um gato”, de Jorge Ialanji Filholini, a índole poética é um impulso incessante, mesmo diante do caos, dos escombros humanos e entulhos da vida. A realidade fragmentada em palavras, versos e estrofes na [de]composição de um cenário onírico. Vida e morte coabitam os espaços sem a velha medição de forças. A cidade e os seus espaços, as pessoas e os objetos, a reinvenção de tudo é o mote a ser explorado. A própria palavra enquanto matéria laborada não foge da necessidade de reinvenção. Os viventes do que sobraram da civilização transitam por entre os desobreviventes, como se o apocalipse houvesse os esquecido, condenando-os a viver sobre o que um dia foram e não tem mais volta. Delírio de um louco, realidade nua e crua, distopia ficcional ou antevisão de um futuro possível. O que é real ou o que não é, já não importa. Tudo é fugidio, insólito, poético.

A ressignificação das coisas após a derrocada de tudo também é problematizada por Fred Di Giacomo em “Primavera”. A começar pelo próprio nome do seu conto, habitualmente subtendido como recomeço da vida, no ciclo de suas estações. O cenário percorrido por seus personagens, o Velho Cego e a Menina Triste, é tão insólito quanto as interpretações dos sinais que o Cego enxerga. Ante a impossibilidade de retorno do que era normal, o absurdo passa a ser a norma. Não há espaço para as convenções de outrora, diante de um mundo completamente novo — ainda que esse novo seja um mundo em frangalhos. E se, de um lado, recomeçar a partir do fim não é reiniciar do zero. Do outro, reinventar a si mesmo é deixar para trás o que já não cabe mais em si, é dizer não para aquilo que é preciso e seguir novos caminhos.

E aqui novamente essa ressignificação ganha nova perspectiva. Sobretudo quando a necessidade de se tornar outra coisa, e não a si mesmo, ocorre por meio de uma violência contra o próprio Eu que sobrevive — apesar de já não mais existir para todo o resto. O desnascimento contido em “A mobília”, de Raimundo Neto, inquere sobre as rupturas, as concessões, os entraves e toda uma carga de sentimentos, por vezes insuportáveis, ante a necessidade de seguir em frente. Ocorre que em muitos casos seguir em frente não é uma alternativa fácil e muito menos válida. Sobretudo quando o antigo Eu não é uma pessoa morta, sepultada e esquecida. Menos ainda quando essa mudança e esse novo rumo não ocorrem a partir de uma tomada de decisão autônoma, mas imposta pela relação estabelecida com o Outro — coercitivamente ou não —, e as vicissitudes da vida. Raimundo Neto explora com maestria o Terror, enquanto gênero literário, para falar sobre os traumas inerentes aos processos de adoção e as relações familiares estabelecidas; cujo resultado dessa experiência nos leva a uma imersão atordoante no subconsciente do protagonista e do narrador.

Por fim, em “A implausibilidade das árvores”, Karin Hueck retrata a crise epidemiológica sob a ótica de três gerações: um idoso que viveu os horrores da segunda guerra e do Holocausto, uma mulher que divide os dias entre a tentativa de manter a rotina do trabalho em confinamento e os cuidados maternais com seu filhinho, e a ingenuidade de uma criança no seio de uma crise epidemiológica. Os escombros de um porão sendo retirados após um bombardeio talvez seja uma das cenas mais poéticas sobre a superação de traumas e as relações familiares. Outra cena que chama a atenção retrata o estranhamento e as inquietações das personagens no pós-confinamento, ou quando as pessoas tentam restabelecer a ordem das coisas. As árvores podem até permanecerem intactas em um cenário de guerra e/ou pandemia, mas o mesmo não pode ser dito dos demais personagens sobreviventes no conto de Hueck, ou nisso que nos habituamos a chamar de vida real.

Pandemônio… é, dentre outras coisas, uma daquelas obras que reafirmam que o maior êxito de uma antologia não advém da reunião de nomes consagrados, mas sim da beleza e robustez das histórias reunidas. Se a obra em questão adentrará no rol daquelas que saciarão os anseios pelo surgimento de grandes obras, não há como afirmar e é o que menos interessa. O que é possível afirmar é que seu nome já ecoa em vários lugares e vem alcançando longas distâncias. Resta torcer para que ele seja ouvido por um bom tempo.

O livro estará disponível para download gratuito em dois formatos: em uma versão deluxe exclusiva, com o projeto gráfico (para capa e miolo) no site http://www.pandemonioantologia.com, e via e-book, pela Amazon.

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