A estética da indiferença, de Sidney Rocha

Quando a história em si mesma não privilegia o velho estabelecimento de um conflito, as reviravoltas, o clímax e o desfecho, o que garantiria o não-abandono da leitura e o prazer da experiência proposta pelo autor? Uma das respostas possíveis é o que Sidney Rocha nos concede com o segundo volume da trilogia “Geronimo”: A estética da indiferença (Iluminuras, 2018).

Narrado em primeira pessoa, entre as divagações, sonhos e o fluxo de memória do protagonista, Michi, somos convidados a mergulhar na sua vida cotidiana em Amaravati — um condomínio luxuoso situado aos arredores de uma cidade fictícia denominada Cromane —, e no seu enlace matrimonial com Hana. Em um enredo em que a exploração da linguagem se sobressai em relação aos temas desenvolvidos no seio da narrativa, é preciso uma leitura atenta, capaz de perceber as questões problematizadas por Sidney Rocha em sua obra, e o modo como seus personagens se portam diante delas. Como, por exemplo, o estado degenerativo e melancólico que o hedonismo do casal e dos demais personagens revela.

Nessa perspectiva, a indiferença sugerida no título como uma questão estética que norteia a vida dos moradores de Amaravati e Cromane, acentua a superficialidade das relações estabelecidas, resumindo a vida num jogo de aparências ou numa forma cosmética de encará-la.

Os próprios nomes dos espaços sugerem um jogo de palavras, desviando a atenção do leitor para o significado original das mesmas. E ainda que Amaravati e Cromane não sejam anagramas de “ataviaram” e “necroma”, é licito supor que a primeira seja uma variação do verbo “Ataviar” (relativo a colocar em ornamentos, ou enfeitar), e a segunda uma variação do substantivo “Morte” (cuja etimologia é oriunda do grego “nekrós”) análoga ao excessivo e descontrolado apego aos bens materiais e ao dinheiro. Enquanto Cromane é descrita como um “parque temático cujo tema principal é o dinheiro”, onde o casal Michi e Hana, e os moradores de Amaravati realizam passeios e programas culturais para fugirem da monotonia; o condomínio hipertecnológico localizado numa região privilegiada é um lugar que “não há espaço para ‘All’, e sim para o exclusivo, o especial, o único, o espetacular”. Um lugar para divagações, onde a paisagem como um todo assemelha-se a uma pintura exposta num panfleto imobiliário.

Indo na contramão da crítica social centrada nas contradições socioeconômicas entre a classe média e as camadas mais humildes, Sidney Rocha redimensiona o olhar para uma elite social que ocupa o topo da pirâmide. Trata-se daqueles que vivem “na Roda da Felicidade e não da Fortuna, sem temer estar no topo hoje e amanhã em um inescapável pesadelo”, vivendo “a melhor vida com o máximo estilo”. O oposto desse mundo paradisíaco e gourmetizado não se encontra ao alcance das vistas, ou sequer merece um olhar mais atento. Análogo às ruínas de uma sociedade decadente, as misérias humanas “não são flores que valha a pena cultivar”. Nem mesmo aqueles que se encontram numa situação mais favorável escapa ao desdenho de uma elite dominante, afinal, pior do que os pobres, só mesmo os novos ricos e seu constante medo de retornar para a antiga condição financeira. Não à toa “a economia define tudo, inclusive a moral”, e aqui caberia frisar que qualquer semelhança com a vida real [não] é mera coincidência.

As personagens de A estética da indiferença tiveram poucas tensões ao longo da vida. Tensões essas evitadas a todo custo, ainda que o preço a pagar seja aprisionar-se num condomínio e se entregar ao tédio e a um estado letárgico. Para tais indivíduos, pouco importa o que acontece fora das redomas de vidro dos condomínios fechados e até mesmo com aqueles que os cercam: “se chover para cima, terá ver com a natureza e sua sabedoria. Se destroem as florestas […], não discutiremos com as motosserras”. Menos importância ainda tem a vida humana como um todo e a memória dos mortos. O imperativo categórico a ser bradado em plenos pulmões é pisoteá-los e caluniá-los, mesmo ante as incertezas na distinção entre aqueles que, de fato, estão mortos e os que estão verdadeiramente vivos.

As relações humanas problematizadas por Sidney Rocha mimetizam os jogos de cenas de peça de teatro: “os casais bem-sucedidos são apenas sonhos e convicções” e representam “a verdadeira estética – a tragédia da incomunicabilidade, de não podermos nos tocar senão no mundo dos sonhos”. Enquanto Michi, um ex-professor de teatro da Faculdade, fantasia relações sexuais com as mulheres ao seu redor, sua esposa, Hana, flerta com um homem casado nenhum pouco preocupada com as aparências — a escolha de “Poor Butterfly”, de Sarah Vaughan, para simbolizar sua relação extraconjugal não podia ser melhor. Aparentemente tudo segue como deveria ser. Até mesmo porque, de acordo com o status quo da sociedade em questão, as pessoas não suportariam umas às outras se não fingissem o tempo todo, se fossem realmente verdadeiras em tudo o que pensam, sentem e fazem.

Não é de hoje que a literatura contemporânea nordestina vêm demonstrando que ela não se restringe ao estereótipo da seca e da fome. Mais do que falar sobre as mazelas de um povo historicamente marginalizado, A estética da indiferença é o exemplo claro e evidente de que as obras produzidas fora do grande eixo tanto podem falar sobre o seu lugar e o seu tempo quanto podem ser universais e atemporais.

Sidney Rocha (1965) é natural de Juazeiro do Norte, Ceará. Escreveu os livros de contos Matriuska (2009), O destino das metáforas (2011, vencedor do Prêmio Jabuti, em 2012), Guerra de Ninguém (2016), e dos romances Sofia, uma ventania para dentro (1994, vencedor do Prêmio Osman Lins, em 1985), Fernanflor (2015) e A estética da indiferença (2018).

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