A cor humana, de Isabor Quintiere

A estreia de Isabor Quintiere com o seu livro de contos, A cor humana (Escaleras, 2019), é um belo indicativo de que a literatura brasileira vai muito bem, obrigado. Dotada de uma inventividade impressionante, ao longo das dez narrativas fantásticas que compõem a obra, Quintiere aborda com robustez e delicadeza os mais variados temas, tais como: a morte, a maternidade, o conhecimento de si, encontros e desencontros, entre outros temas que se apresentam como palavras-chaves.

Dentre as possibilidades de compreensão sobre A cor humana, uma delas se assemelha a um conjunto de espelhos, revelando-nos a vastidão de cores humanas reunidas em um caleidoscópio ficcional. Nesse jogo de luz, sombras e cores, o insólito e o absurdo se correlacionam com a cotidianidade da vida em perfeita harmonia. Como, por exemplo, no inesperado encontro entre Adília e o Fim do Mundo, narrado no conto de abertura “Adília e o apocalipse”. Encontro insignificante para uma menina, no primeiro momento, se comparado a outros tanto que ela teria ao longo da vida. A engenhosidade aqui presente vai além da personificação e humanização de um evento cataclísmico, com seus anseios e angústia nutridos pelo desejo de reencontrá-la. Ela reside em conceder à casualidade, os acidentes de percurso, o inesperado e até mesmo aos eventos mais comuns, e aparentemente insignificantes, toda a beleza e importância que eles merecem.

Em “Vera se vai”, a problematização do “encontro” se repete entre a personagem central e o Tempo. Um evento adiado, postergado para o momento em que Vera não mais permaneceria na agoridade dos dias, alheia à passagem do tempo e suas intempéries. Em tal conto, Quintiere subverte a lógica do tempo, que rege a vida de tudo que existe e os submetem à sua vontade, para sujeitá-lo aos desígnios de Vera. Afinal “por que trilhões de anos, se poderia ser dez segundos na voz de Vera?”. Aqui, mais uma vez, a autora paraibana humaniza uma grandeza física, dotando-a de sentimentos que vão desde à ira e a avassaladora paixão, até à veneração silenciosa e o amor em a sua plenitude. Até que os olhos de Vera e o Tempo se cruzem de modo definitivo, e, enfim, ele possa carregá-la em seus braços.

O embate entre os contrários, ou a inevitável convivência entre eles, igualmente ocorre em A cor humana. Em “Homem-ilha”, encontro e desencontro são tratados com aquela delicadeza e robustez supracitada, impresso pela autora em sua narradora, ao falar sobre as dores de um sobrevivente de guerra e a solidão daqueles que se encontram sozinhos no mundo. A imagem de Abdul observando a vastidão do oceano, experimentando uma dor maior que o tempo, a distância e a própria vida, é desoladora.

Já em “Entrega”, Quintiere relata o espantoso encontro de uma personagem consigo mesma. No conto em questão, Sílvia é descrita como uma mulher comum, com sua “existência monótona, sobre a qual ela raramente ponderava”, até se ver confrontada a encarar a si mesma. A experiência da “aparição” do seu duplo se torna uma marca indelével em sua vida, ainda que o desejo de repetir tal encontro seja inexistente.

Vitória poderia ser um nome impróprio para uma personagem marcada pelas derrotas e infortúnios ao longo da vida, se ao término do conto ela não se apoderasse de si mesma e do seu destino. No conto homônimo à personagem, a narração invisibiliza sua força, condenando-a a uma vida miserável, frágil e deprimente. O espelho aqui surge não como um objeto que possibilita o autoconhecimento, quando Vitória ergue seus olhos e “com eles fixos no espelho mas não em si”. Ao notar a presença da voz narrativa nesse gesto, o espelho se configura como uma lente de aumento capaz de expandir a visão e revelar o que até então permanecia oculto: o verdadeiro algoz que determinava a vida e o destino da personagem.

Tanto em “Vitória” quanto nos demais contos, o olhar se apresenta como um tema recorrente. Ao conjugar tal verbo, Quintiere estabelece o instante definitivo de ruptura, superação e reviravolta, como, por exemplo, em “Madres”, quando a personagem-narradora viu o próprio filho pela primeira vez e se sentiu “tomada pelo inigualável sentimento de protegê-lo de todas as ameaças desse mundo terrível”. Noutro instante, quando ela ergue os olhos e percebe o olhar fulminante de Zaíra em seu bebê, não pensou duas vezes em eliminar a ameaça eminente. No conto em questão, os demais olhares assumem uma postura denunciativa e condenatória, como na cena em que a mãe-narradora sai de casa em busca de alimento para o filho, e em seguida uma multidão se aglomera em torno do cadáver dele “abatido como um animal, aniquilado como um monstro, perfurado e assassinado a céu aberto”.

A finitude da vida, ou a morte propriamente dita, é igualmente problematizada em A cor humana, de forma leve, sem apelar para a angústia e o terror que o tema provoca. Até mesmo o suicídio é cogitado e efetivado num tom preciso em “Memento mori”, num duelo perpétuo entre o corpo e a alma. Em “O fim das coisas”, o olhar e o tempo se unem numa contemplação serena sobre as memórias e sonhos, enquanto o ciclo da vida segue seu curso. O enterro de um ente querido, os vestígios daqueles que fizeram parte “do grande acidente que foi a humanidade”, entre outras fatalidades, transformam o olhar que outrora admirava as coisas inéditas e raras, numa singela contemplação dos fenômenos. O fim das coisas desnuda-os de todo esplendor, sobretudo ante a impossível mesura e ilustração do sentimento de não mais poder ver a cor humana.

Como bem sublinha Maria Valéria Rezende na orelha do livro, os contos de Quintiere devem ser lidos e relidos, com espanto e prazer. E se a literatura tem a possibilidade de nos levar para além deste mundo banal, a viagem que A cor humana nos proporciona é daquelas experiências que marcam e garantem o seu espaço entre aquelas que dificilmente esqueceremos. Restando-nos o desejo de sermos levados para outro mundo, e que venha o próximo.

Isabor Quintiere (1994) nasceu em João Pessoa, onde reside. É professora de língua inglesa, graduada em Letras – Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Estreou na Revista Malembe em 2015 com seu conto “Diálogo com a m(ed)usa” e participou da coletânea “F! de verdade”, em 2018. Encontra inspiração para sua prosa principalmente na literatura fantástica latino-americana e na ficção científica. A cor humana é sua primeira seleção de contos.

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