Sangrem os porcos, depenem os frangos, de Ivandro Menezes

Se dos jornais populares de outrora saía sangue ao serem espremidos, o mesmo pode ser dito de Sangrem os porcos, depenem os frangos (Moinhos, 2018), de Ivandro Menezes, sem nenhum demérito. Ao longo dos 15 contos que o compõe, observamos a crueldade humana praticada sem nenhum pudor ou sentimento de culpa.

Ivandro Menezes inicia a sua obra com o conto “No princípio”, emulando a narrativa bíblica a partir do Gênesis. O que se vê em seus capítulos e versículos é um deus com sua inicial grafada em minúscula, simbolicamente destituído de sua grandeza. A subserviência aos desejos dos homens que não se contentam com nenhuma outra forma de justiça a não ser a pena de morte, funciona como um alerta: se tudo é permitido ao homem na ausência divina, infinitamente pior é quando a vontade humana é chancelada por ele.

“Felizes para sempre”, fala sobre a brutalidade dos homens que não aprendem a amar, jogando por terra o velho adágio na presente obra. Afinal, em um mundo onde as relações afetivas se resumem à satisfação do prazer pelo mero prazer, não há lugar para o amor ou qualquer outro sentimento que dignifique o Outro, e que não o reduza a um reles objeto descartável.

O resultado dessa falta de empatia e afeição é novamente vista em “Jacarés banguelas não assobiam canções de amor”, que, apesar de iniciar com o trecho de um ato de contrição, o personagem central não demonstra nenhum arrependimento por seus atos. A paixão evocada nesse conto, nos remete para a origem etimológica de tal sentimento, que vem do verbo grego “sofrer”. A posse do Outro, justificada pela inadmissível alegação de que “se não for minha, não é de mais ninguém”, nos leva a entender que, para tais tipos, a única possibilidade de cessar o seu sofrimento é dando um fim a ele.

A busca por vingança travestida de justiça é a tônica de “Sangrem os porcos…” anunciada logo em seu título. No conto intitulado, “Calango”, Menezes problematiza essa questão, ao retratar o status quo de uma sociedade corrompida, a partir do diálogo entre dois agentes da segurança pública. Ambos personagens ecoam as vozes dos apresentadores, locutores e jornalistas dos programas sensacionalistas, vozes que alimentam o discurso de ódio e o espírito de vingança de uma parcela da população que não aceita nenhuma outra justiça a não ser aquela apregoada pela lei de talião.

Em “Frágeis tentativas de alcançar o ar” o tema se repete, desta vez sobre as relações afetivas que se desgastam com o tempo e perdem a sua razão de ser. O resultado dessa decadência não poderia ser pior. O trágico fim das personagens de Ivandro Menezes não poupa ninguém. Um exemplo disso é apresentado em “Canção”, cuja solução para restaurar uma relação que se encontra apodrecida pelos próprios frutos é levada às últimas consequências.

Por mais romântico que se queira retratar a humanidade, o seu lado mais obscuro sempre vem à tona. Seja na banalidade da vida e da morte protagonizada por quem acostumou-se a sobreviver em meio às desgraças e por isso mesmo desconfia da própria sorte quando ela aparece; ou na dor incurável das mães que perdem seus filhos precocemente, a incapacidade de seguir em frente, em decorrência de um vazio dentro de si engolindo tudo ao redor feito um buraco negro.

É preciso fôlego para chegar ao fim de “Sangrem os porcos…”. Talvez por isso, Ivandro Menezes encerra sua obra de estreia com “O homem faz o que é preciso”. Os sentimentos que o derradeiro conto evoca podem ser os mais variados, frente ao desespero de um homem que faz o que é preciso para sobreviver, e a sensibilidade de um amigo que o apoia sem medir as consequências ou levar em consideração seus pudores.

Ivandro Menezes nasceu em Mamanguape, interior da Paraíba. É professor da Universidade doEstado da Bahia e estudante de Sociologia. Publicou contos e resenhas em sites literários como LiteraturaBR e Appaloosa Magazine.

2 comentários sobre “Sangrem os porcos, depenem os frangos, de Ivandro Menezes

  1. Estou agradecido e feliz com a leitura generosa e sensível de meus contos. O modo como passou por cada conto ressaltando seus aspectos e nuances, a perspectiva do Outro, a sacralidade profanada, revelam uma leitura atenta. Obrigado por reverberar tão positivamente a minha literatura.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Bom saber que gostou. Seus contos são de tirar o fôlego. Havia muito mais a ser dito sobre eles, mas a vontade de compartilhar a experiência falou mais alto, sobretudo pela urgência de refletirmos e problematizarmos os temas abordados em cada conto. Parabéns pela obra. Sem dúvidas, “Sangrem os porcos” é o que podemos chamar de uma estreia de peso. Faltou dizer na resenha que anseio pela oportunidade de ler o próximo. Abraços.

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