My Way: a Periferia de Moicano, de Valo Velho

O que esperar de uma obra que se define como uma mescla entre o registro autobiográfico, a narrativa novelística, a análise histórica e sociológica?

Feito a partir das experiências do próprio autor, My Way (Selo Povo, 2019) poderia se resumir numa reivindicação egóica de um protagonismo unilateral na construção do Movimento Anarchopunk no Brasil; ou se tornar em um documento histórico inédito, que apesar de ser narrado por “quem viveu dentro do tema, de quem foi o tema, e de quem construiu muita coisa desse movimento”, refazendo a jornada de um conjunto de pessoas fundamentais na formação da cena punk nacional, e, consequentemente, na formação do próprio autor da obra em questão.

Ao longo dos 29 capítulos, Valo Velho discorre sobre os conflitos internos e externos ao movimento, a estética do visual agressivo, sujo e rasgado, equiparado simbolicamente à indumentária sacerdotal, a criação do MAP SP (Movimento AnarchoPunk) e a militância em diversas frentes sociais. Apesar de se resguardar no direito de não adentrar profundamente em alguns eventos polêmicos e importantes, e nem tampouco citar os nomes de alguns rivais e ex-companheiros, numa espécie de limite ético imposto por si mesmo; May Way resgata um período de grande efervescência cultural e política no país, dando voz e visibilidade a personagens que permaneceram execrados dos manuais históricos/acadêmicos, sem permanecer focado na questão musical e nas brigas entre as gangues punks, skinheads e neonazistas.

Após originar-se nos EUA, na década de 1970, e estabelecer seus ideais na Inglaterra, o Punk surge no Brasil como um movimento periférico, composto em sua maioria por uma juventude insatisfeita com as opressões sociais intensificadas pelo capitalismo e com a privação da liberdade imposta por uma sociedade conservadora e elitista. Como uma das formas de combater tais questões, Valo ressalta a importância que os Zines tiveram nesse processo, seja problematizando os ideais pacifistas do mov. Anarchopunk, ou na divulgação de eventos e shows das bandas notadamente marcadas pelo tom político de suas músicas.

Em um dos capítulos mais significativos de My Way, intitulado “Minas Punk”, além de homenagear as mulheres que compuseram a cena, a passagem ressalta a importância das questões anarquistas problematizadas a partir das pautas feministas, reivindicadas sobretudo pelo CAF — Coletivo Anarco Feminista. Tais problematizações exigiam uma mudança de comportamento e de ideias da sociedade, a começar por aqueles que pertenciam ao movimento. O que, por conseguinte, revelava as contradições do próprio movimento, na medida em que este reproduzia o status quo da sociedade que ele mesmo criticava e buscava transformar.

Se a música Punk é marcada pelos efeitos ruidosos, as batidas agressivas e uma intensidade no ritmo que, por vezes, sugerem descompasso e desordem — como modo de representação da angústia, do ressentimento e da revolta de uma vida mergulhada no caos urbano —, os capítulos e a própria narrativa de May Way não poderiam deixar de ser regidas pelo fluxo da memória. Tal procedimento possibilita ao leitor não apenas um mergulho no turbilhão de vivências subjetivas do autor-personagem, como também promove uma experiência estética que se aproxima daquela proposta pela sonoridade do gênero supracitado.

De acordo com o escritor e cineasta francês Alain Robbe-Grillet, “se o leitor às vezes sente dificuldade em se localizar no romance moderno, é da mesma maneira como às vezes ele se perde no próprio mundo em que vive, quando tudo cede à sua volta, velhas construções e velhas normas”. Nessa perspectiva, tal procedimento narrativo assemelha-se tanto com o estado de espírito em que autor se encontra ao reviver suas memórias e transpô-las para o texto, quanto a ebulição de sentimentos provocada no leitor ao se sentir tragado pelo vórtice anamnésico da obra. O que, em certa medida, corrobora para atestar a criatividade do autor, inúmeras vezes sugerida em My Way, uma vez que, segundo Gillo Dorfles, “a veia criativa do homem está continuamente sujeita a saltos espetaculares” pois “as obras que daí derivam são o espelho fiel disso”.

Embora Valo não realize um ensaio propriamente dito sobre o anarquismo e até mesmo sobre o movimento anarcopunk — o que poderia deixar um sentimento de vazio para aqueles que buscam tais procedimentos academicistas —, entretanto, My Way cumpre o seu papel e se fixa como uma referência bibliográfica indispensável para estudiosos e apreciadores da temática. Ao término da sua leitura, uma das vontades que sobrevêm é a de poder bater um papo com seu autor sobre os temas que ficaram latentes ao longo da experiência proposta, ou esperar que Valo Velho lance outra obra, ampliando ainda mais o conhecimento sobre um tema relevante tanto para a musicologia quanto para a nossa história sociocultural e política.

Valo Velho, também como Elias Silva Santos, é natural de Itamaraju (BA) e radicado na zona sul de São Paulo. Além de compositor e músico alternativo, Valo foi apresentador do programa web radio Skizzofrania e fundador das bandas Pós-Guerra, Insurreição, Ewiger, Tomahawk e BillyWolfGangz. My Way (2019,) é a sua primeira obra, lançada pelo Selo Povo.

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