Porca, de Alexandre Marques Rodrigues [resenha]

Porca (Record, 2019), o mais novo romance do autor santista Alexandre Marques Rodrigues, apresenta-nos a vida como um pêndulo oscilando entre as angústias da espera e a satisfação dos desejos.

Em resumo, o romance é protagonizado por Roberto, Bernardo, Marie e uma personagem referida pronominalmente como Ela. A narrativa fica, em sua maioria, a cargo de Roberto e Bernardo, sendo o primeiro um entomólogo forense e suposto escritor de um livro homônimo ao romance; e o segundo, um infeliz e amargo funcionário de uma livraria, que não resiste à tentação de levar às escondidas para casa as novidades que chegam das editoras, autodenominando-se como deflorador de livros.

Ela é uma doutoranda em Literatura que desenvolve uma tese sobre a obra de Osman Lins, e mantêm um relacionamento extraconjugal com Roberto, que anseia por um reencontro entre os dois, do início ao fim da narrativa. Marie é descrita por Bernardo como uma moça bem-sucedida na vida, pesquisadora do Governo Federal, casada e prestes a defender o mestrado. Ao reencontrá-la na livraria, Bernardo convida Marie para um pretensioso jantar em seu apartamento, além de propor para que o ajude em uma de suas contravenções.

Porca conta, ainda, como pano de fundo, a ascensão de políticos religiosos ao poder por meio de eleições diretas, resultando na implementação de um regime totalitário que impõe medidas extremas e absurdas, como, por exemplo: a proibição do Carnaval, do casamento que não seja “entre macho e fêmea”, a exclusão da filosofia dos currículos escolares e o fechamento dos cursos considerados desviantes nas universidades — qualquer semelhança com a nossa realidade [não] é mera coincidência.

Alexandre Marques Rodrigues explora o quanto pode a liberdade na composição das cenas, dinamizando a narrativa por meio de blocos de textos paralelos ao texto principal. O efeito permite acompanharmos a história em dois planos: o primeiro, em maior evidência no centro das páginas, e o segundo, nas margens laterais e no rodapé, com breves relatos e fonte menores. O que, a princípio, pode ser desafiador para o leitor não familiarizado com a forma, e um atrativo a mais, levando em consideração as escolhas que podem ser feitas neste processo entre um plano e outro durante a leitura.

As personagens de Rodrigues são marcadas pela subversão, ou, se preferirem, pela ousadia, no sentido mais amplo do termo. Parafraseando a própria definição feita por uma delas: a perversão é, por excelência, aquilo que nos torna homens. Contudo, embora a necessidade desenfreada de preenchimento do vazio em suas vidas, por meio de uma constante busca pela satisfação dos apetites sexuais, seja aquilo que nos salta aos olhos; Porca nos permite problematizar a questão da espera latente no decorrer da história, e que não se finda com a última página do livro.

A obra de Samuel Beckett é um exemplo clássico sobre a questão da espera, sobretudo na peça Esperando Godot, protagonizada por Vladimir (Didi) e Estragon (Gogo). Ao representar o estado de angústia vivido pelo homem no período do pós-Guerra, Beckett mantêm insolúvel aquilo que, para alguns, representa a metáfora da espera de Deus, e, para outros, a esperança de que algo possa reanimar o homem na tarefa de reconstruir a vida, sem que prevaleça o medo de ver tudo ser destruído novamente por conta da estupidez humana.

Tanto em Esperando Godot quanto em Porca, a espera é o que, de certo modo, determina a vida das personagens. No primeiro caso, Didi e Gogo sequer alcança ou vislumbra a possibilidade de se encontrarem com Godot; experimentando, assim, o caráter absurdo da vida por meio de uma situação-limite. No caso do romance de Rodrigues em questão, a espera se torna o resultado, ou a consequência, de uma constante busca pela satisfação dos desejos (Vontade), que permanece inextinguível, ainda que as personagens realizem aquilo que tanto desejam. O que reforça aquela impressão da vida como sendo análoga ao pêndulo schopenhaueriano, oscilando entre as angústias da espera e a satisfação dos desejos. Como nos casos do anseio pelo fim de semana com a amante e o jantar com uma paixão antiga, protagonizados por Roberto e Bernardo, respectivamente.

Beckett e Rodrigues problematizam, por fim, uma busca pelo sentido da existência, através da insistência de Vladimir em pedir para que um garoto avise a Godot que o viu no tal lugar marcado, e as indagações tenazes de Roberto sobre quem é o verdadeiro autor de Porca, e até mesmo sobre a própria existência, ao por em dúvida se ele mesmo não passa de mais uma mera personagem criada por outra pessoa. Tal exercício de metalinguagem permite-nos repensar não apenas a autoria do texto, como também a própria leitura que fazemos sobre o mesmo, e as análises decorrentes desse processo.

Quer seja intencional ou não, Porca é um daqueles romances que nos convida a refletir a todo instante. Um exercício de leitura que exige considerável esforço e uma imersão na interioridade de vida das personagens — sem nenhum tipo de pudor ou preconceito —, sob o risco de perdermos a oportunidade de uma grata experiência.

Alexandre Marques Rodrigues nasceu em 1979, na cidade de Santos, litoral de São Paulo. É formado em Psicologia, e autor pela Editora Record de Parafilias, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2014, na categoria Contos (finalista do Prêmio Jabuti e semifinalista do Oceanos), e do romance Entropia (finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura 2017),

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