Quatro Velhos [resenha]

A chamada para o presente texto bem poderia ser: Quando uma mera conversa de bar rende um prazeroso romance sobre amizade, amor, finitude da vida e alteridade. É o que, em alguma medida, Luiz Biajoni apresenta no prólogo de Quatro Velhos (Penalux, 2018), partindo do boato que um morador de uma cidade pequena do interior paulista seria filho bastardo do ditador italiano Benito Mussolini.

Protagonizado por quatro personagens (Lando, Ciça, Ronnie e Never), Biajoni nos convida a refletir sobre as formas de vivenciarmos a passagem do tempo e aproveitarmos a vida.

Orlando e Cecília, também conhecidos como Lando e Ciça, é um casal de septuagenários aposentados, imersos em uma rotina regida pela simplicidade que a velhice e a vida interiorana têm a oferecer — como aqueles que se dão por satisfeitos com a vida ou se resignaram ao longo do caminho. Apesar de o diálogo não ser inexistente entre o casal, enquanto Ciça dedica-se aos afazeres domésticos e Lando aos pequenos serviços de marcenaria, ocorre um distanciamento entre os dois, beirando uma singela solidão. O que não significa dizer que a imagem construída pelo autor represente o langor de um envelhecimento semelhante ao estado melancólico das telas de Edward Hopper, com cores um tanto quanto menos frias.

A mudança mais significativa na vida de Lando e Ciça ocorre quando a antiga casa dos Almereida, seus ex-vizinhos, é alugada por Roland e Guinevere (Ronnie e Never). A visível excentricidade dos novos moradores e a intensidade com que se entregam à vida, desperta no pacato casal aquilo que Nietzsche chamaria de Vontade de Potência. Ou ainda, dito aqui apenas de passagem e guardadas as devidas proporções, a narrativa de Quatro velhos permite uma analogia com a reflexão que o filósofo do martelo faz sobre o estado Apolíneo e Dionisíaco da vida; na medida em que o primeiro casal representaria Apolo (o espírito da ordem, da racionalidade e da harmonia intelectual) e o segundo representaria Dionísio (o espírito da vontade de viver espontânea e extasiada).

Nessa perspectiva, por meio de personagens singulares e bastante críveis, Quatro Velhos se torna, no sentido horaciano: uma celebração à vida como quem aproveita o dia confiando minimamente possível no amanhã. A moderação necessária para o equilíbrio das polaridades díspares advêm com a alteridade entre as personagens, ou seja, com a capacidade que cada uma tem de se colocar no lugar do outro. O que demonstra uma habilidade ímpar de Biajoni em tratar assuntos pesados com toda a leveza que elas merecem. Como, por exemplo, no drama vivido por uma das personagens que sofre com a fase terminal de um câncer, levando todos ao seu redor a experimentar consigo o limite da condição humana até o inevitável fim.

O racismo é outro assunto que aparece na trama, simbolizado pela preferência que o pai de Lando tem pelos discos de jazz gravados por cantoras brancas. A naturalidade como a questão é tratada não carece de nenhuma leveza por parte de Lando, ao reconhecer que seu pai “gostava de mulheres brancas cantando, [e] dizia que as negras tinham infectado a música”, reconhecendo ainda que ele “realmente odiava negros”. E nem tampouco carece de alguma problematização na trama, de modo mais expressivo, seja por meio das personagens ou pelo narrador, justamente pelo fato de tal naturalidade ser a norma, o status quo de uma sociedade que insiste em negar a existência do racismo — com o aval daqueles que, em tese, deveriam combatê-lo — e que, sem nenhuma desfaçatez, não vê problema algum em sua existência.

Quem acompanha Luiz Biajoni em suas redes sociais, leu ou ouviu falar do seu romance anterior, sabe que o jazz não é nenhuma novidade em sua obra. Em A Viagem de James Amaro (Língua Geral, 2015), o gênero musical embala o “on the road” do autor americanense do início ao fim, com diversas citações de discos, músicas, cantores e cantoras. Em Quatro Velhos, o som das big bands e dos cantores de jazz da era dourada tanto revela o específico gosto do pai de Lando (representado por: Anita O’Day, Blossom Dearie, Judy Garland, Julie London, Rosemary Clooney, Peggy Lee), quanto nos remete ao protesto que Baco Exu do Blues faz na abertura de Bluesman, ao dizer que: “tudo que quando era preto era do demônio e depois [que] virou branco foi aceito”.

Essa e outras sutilezas, dispostas ao longo da narrativa, exigem uma leitura atenciosa, capaz de perceber o rigor com que Biajoni problematiza as vicissitudes da vida humana com tamanha delicadeza e sensibilidade. Como se o autor de Quatro Velhos quisesse nos ensinar que por detrás das coisas mais comuns do nosso dia a dia se esconde algo belo e especial. Ou ainda, se quisermos parafrasear o que Platão ensina em sua República: o que importa não é a espera por uma crise para descobrirmos aquilo que é importante na vida. Ela, por si só, é o que temos de mais precioso.

Luiz Biajoni nasceu e vive em Americana, interior de São Paulo. Escreveu A Comédia Mundana (2013) e A Viagem de James Amaro (2015) publicados no Brasil pela Língua Geral e em Portugal pela Chiado. É autor também de Elvis & Madona– uma novela lilás (2010) e Virgínia Berlim – Uma Experiência (2007).

Expresso, por fim, minha gratidão ao Biajoni pelo envio do livro como cortesia.

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