Entrevista com Wilson Alves-Bezerra

Wilson Alves-Bezerra acaba de lançar Malangue Malanga (30 Poemas para ler no Exílio). conversei com o autor sobre o livro e outros assuntos.
Créditos: Paulo Slachevsky

Wilson Alves-Bezerra nasceu em São Paulo, 1977. É mestre em literatura hispano-americana pela Universidade de São Paulo – USP, e doutor em literatura comparada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, cuja tese foi publicada alguns anos depois sob o título: Da clínica do desejo a sua escrita. Realizou traduções da obra de Horacio Quiroga e Luis Gusmán. Em 2016 sagrou-se vencedor do prestigioso Prêmio Jabuti, edição 58ª, na categoria de Poesia pela Escolha do Leitor. Colabora com resenhas críticas de livros em algumas seções culturais de importantes jornais nacionais, e leciona na Universidade Federal de São Carlos (SP).


“Nos movemos entre resistência e rendição. Ninguém fica impermeável. O que nos resta é a linguagem”.

Nélio Santos: Como surgiu a proposta e como se consolidou a publicação de Malangue Malanga, que sai por um grupo de editoras cartoneras?

Wilson Alves-Bezerra: O livro se organiza a partir de uma ideia que antecede a projeto do livro: quando o sujeito ingressa em território estrangeiro, a língua do outro pode promover efeitos os mais diversos. Essa ideia toma uma forma: a mistura de línguas, a prosa poética, e os personagens em exílio. Escritos os poemas, há também uma forma de edição que reverbera isso: a marginalidade da edição de papelão, potencializada pela agilidade do mundo digital. A Vento Norte Cartonero, do editor Fernando Villarraga, reativou o pool de cartoneras de três continentes, já que o livro pode ser lido a partir de diferentes lugares, sem tradução. Assim, chegou-se a um grupo de quinze editoras de nove diferentes países: Brasil, Chile, Bolívia, México, Guatemala, Peru, Moçambique, França e Espanha. Um luxo, um paradoxo.

Nélio Santos: Em 2018 você lançou uma versão ampliada de O pau do Brasil (2016), e o seu primeiro romance, Vapor Barato (2018), ambas emergidas e imersas no caos político-social que se instalou no país nesse meio tempo. Em que medida é possível falar em um diálogo entre tais obras e Malangue Malanga (2019), tendo em vista que, em sua própria definição, este último é “um livro de poemas e um manifesto”?

Wilson Alves-Bezerra: Nélio, há um diálogo forte entre os três livros: eles dão conta de aspectos de nosso mundo contemporâneo – a história brasileira com seus ecos colonialistas. O exílio que está sugerido no Vapor Barato ressurge como tema e forma e procedimento de edição no Malangue Malanga. O Pau do Brasil,  que agora em agosto terá publicada sua quinta e última edição, está calcado no chão da história: quer ser a crônica, quer ser o escracho, quer ser o prego na ferida, por isso ele acabou. Porque o Brasil escolheu eleger o escracho como presidente e o holocausto como forma de governo. Então vai ser preciso escrever outra coisa.

Nélio Santos: A obra de arte, de modo geral, tem a potencialidade de nos provocar inquietações, ao tratar de situações-limites como as que encontramos em Malangue Malanga. Seria esta a sua intenção poética, se me permite assim dizer, compartilhar e provocar inquietações?

Wilson Alves-Bezerra: Se não inquieta, provoca, desestabiliza ou perturba, não me interessa.

Nélio Santos: É possível dizer que Malangue Malanga representa uma síntese estética dos experimentalismos de linguagem, política e delírio encontrados em suas obras até aqui?

Wilson Alves-Bezerra: Não sei se acredito em síntese, eu penso mais em termos de desdobramentos. Malangue Malanga leva duas estações adiante um procedimento estético que já vinha utilizando. Há um poema nas Vertigens (2015) que se chama “Malangue Malangua”. É o único poema daquele livro que tem título. O livro novo parte daquele procedimento, daquela experiência, daquele ambiente. Se eu pensar que o Malangue Malanga é uma síntese, eu estaria admitindo que ele é um ponto de chegada, um limite, e eu vejo que ainda há um trecho longo a percorrer.

Nélio Santos: Daí advém a ideia de compô-la em três idiomas? Ou, para além do experimentalismo, você levou em consideração a questão do discurso (comunicação), enquanto um dos principais meios de inclusão de refugiados/migrantes, e até mesmo como forma de sobrevivência por meio da linguagem?

Wilson Alves-Bezerra: O espanhol, o inglês, o francês e o português aparecem conforme a necessidade, conforme a cartografia dos poemas. Acho que é um livro que coloca em cena mais a exclusão que a inclusão. O que têm o migrante, o viajante, o refugiado? Falta ou excesso de línguas? Falta ou excesso de referências? O que está em jogo é a desmesura, sempre. A condição do desajuste. A poesia pode recriar isso, com alguma precisão, espero.

Nélio Santos: Essa heterogeneidade da língua é, de certa forma, uma tentativa de falar sobre a diversidade das culturas, das tradições populares, da cosmopolitaneidade das grandes cidades, e mais do que isso, da formação ou busca por uma identidade oriunda desse fluxo migratório e das relações sociais como um todo?

Wilson Alves-Bezerra: Não há identidade (ou melhor, há uma: Hebe Camargo, nos anos noventa, disse que não era preciso saber língua estrangeira, pois ela abanava seu cartão de crédito e com ele conseguia tudo o que queria). Não há identidade, repito. Há fluxos. Descontinuidades. Rupturas. Tentativas de fazer laço. Tentativas de escapar do mutismo e chegar ao outro. E há o poder, o estado, a violência. Uma fuga, uma perseguição.

Nélio Santos: Nessa perspectiva, resistência seria a palavra de ordem tanto para os flagelados do mundo quanto para o artista, de modo geral?

Wilson Alves-Bezerra: Não há mais palavras de ordem. Nos movemos entre resistência e rendição. Ninguém fica impermeável. O que nos resta é a linguagem.

Nélio Santos: Há um coro vozes literárias ecoando em Malangue Malanga. Além da explícita referência ao Edgar Allan Poe, García Lorca e Allen Ginsberg no poema 8, em quais aspectos e/ou imagens essas referências se mostram evidentes?

Wilson Alves-Bezerra: Há um coro de vozes literárias canônicas, e um coro de vozes outras feitas literatura: Ricardo, Willrich, Domingo, Alba, Mohamed. No momento em que a língua trava, em que as existências singulares ou a possibilidade coletiva travam, no momento em que as enunciações acontecem, tudo pode ser ouvido como literatura. A errância também foi marca de Poe, Lorca e Ginsberg.

Nélio Santos: Para finalizarmos, como percebe a situação da literatura brasileira na contemporaneidade, tanto no que diz respeito ao que vem sendo produzido quanto as questões inerentes a essa produção, como por exemplo, a circulação dos livros? Pergunto isso porque, se por um lado a internet facilita a divulgação e um certo contato entre autor e leitor; por outro, existe uma crise no mercado editorial que acaba ditando aquilo que chega nas estantes das livrarias.

Wilson Alves-Bezerra: Malangue Malanga se produz no contexto da crise: um livro feito por quinze editoras artesanais, que reciclam papelão e transformam a feitura de uma obra impressa em um trabalho artístico. Um livro sem isbn. Um livro que não está nas livrarias. Um livro que circula ao sabor dos ventos por diferentes paragens. Um livro errante. As escritoras e escritores brasileiros são como esse exemplar perdido de Malangue Malanga, circulando ao sabor do acaso e à despeito das circunstâncias.

Imagem Facebook

Malangue Malanga (30 Poemas para ler no Exílio) foi lançada em conjunto de 15 editoras cartoneras, projeto Multinacional Cartonera, do qual participam: Vento Norte Cartonero, Candeeiro Cartonera, Butecanis Editora Cabocla, 4 Nombres Cartonera, LaJoyita Cartonera, Cartonera Island, Ediciones Karakarton, La Marge, Proyecto editorial Los zopilotes, La Rueda, Pachuk Cartonera, Viento Cartonera, Kuvinanga e Viringo Cartonero.

As demais produções de Wilson Alves-Bezerra publicadas no Brasil, Chile e em Portugal, são:

2008. Reverberações da fronteira em Horacio Quiroga (Humanitas/FAPESP)
2012. Da clínica do desejo a sua escrita (Mercado de Letras/FAPESP)
2013. Histórias zoófilas e outras atrocidades (Oitava Rima/EdUFSCar)
2015. Vertigens (Iluminuras)
2016. O pau do Brasil (Editora Urutau)
2016. Páginas Latino-Americanas – resenhas literárias (2009-2015) (EdUFSCar/Oficina Raquel)
2017. Exílio aos olhos, exílio às línguas (Oca Editorial – Portugal)
2018. Vapor Barato (Iluminuras)
2018. Cuentos de zoofilia, memoria y muerte (LOM – Chile)
2018. O pau do Brasil – edição expandida (Editora Urutau)

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